UMA TEMPORADA FORA DE MIM

sinto chegar a hora
meu corpo pede: agora!
quero voltar pro lugar
que não vai mais me espera

devo voltar logo
enquanto me reconheço
quanto mais eu vivo
menos eu esqueço.

… uma temporada fora de mim.

solitude é apelido
quando você assumir?
isso é solidão do cão
que mora em ti.
há muitas noites eu me sinto só
às vezes entendo, às vezes não
às vezes me basto, às vezes não
às vezes vivo, às vezes não
às vezes sonho o que não é.

eu sou velho demais pra morrer

uma temporada fora de mim
só se explica assim
uma temporada fora de mim
isso é a vida no fim
uma temporada fora de mim

eu não vim nessa terra
pra não morrer de amor.


ONDE A TERRA ACABA

isabela,
não vai amanhecer
mas vai brilhar tua própria chama

desespera,
mas não deixa a voz secar
um antigo encontro te espera
lá onde a terra acaba

isadora,
em tudo fez manhã
e ele a rir de nós.
– mas não hoje

vive a tua glória
não sei a tua dor
mas tem mim o teu amigo
lá onde a terra acaba.

milena,
revive minha alegria
nas tuas mãos de mulher antiga
e me leva

é verde o teu mar
que cobre as próprias ondas
lá onde a terra acaba.

– algo se perdeu
lá eu poderia encontrar.


ROMEO

baby, eu acho foda quando você passa
sinto o mundo em chamas, eu sou sua fumaça
eu não sei pedir “queime devagar”
mas eu sei muito bem onde eu quero chegar

baby, quando eu te vi eu não soube dizer
se queria matar ou se queria meter
você foi o mais perto que eu cheguei de morrer
se for pra morrer eu vou eu vou eu vou

ah, romeo…

esse teu jogo é sujo desde o começo
isso pouco me importa por isso eu te peço
quero entrar no teu carro, fugir com você
se for pra morrer, eu vou

ah, romeo…

so don’t leave me if my rhymes hurt
you know I came like heavy seas
i know your arms can take me there
your lips can kill me anywhere

ah, romeo…


MAJOR LUCIANA

a mulher erra?
quando é que a mulher erra?

– você sabia que ela ia se levantar.

(cala a boca caiu pra trás)

eu sou enedina
eu sou sara
e o meu homem
é luiz gonzaga

o meu homem é o que você matou
no formigueiro
eu sei, você matou ele no mar
sequestrando ele no mar
e disse que tava com raiva
porque tava pelado.

– eu sou carcará
e comigo ninguém mente.

então ele abriu ela com uma espada
(irado)
ele não era um homem

e a esperança, eu fui essa mulher
sutil lembrança, eu fui essa mulher
da longa espera, outra mulher

ela apanhou no dia em que casou
ele foi lá, ela traiu
o melhor menino do brasil
e a platéia jamais acreditou

– eu sou carcará
e comigo ninguém mente

ela é a cor amarela
ela é a bela e a fera
e eu sou carcará
e comigo ninguém mente
e comigo ninguém.

– você sabia que ela ia se levantar


UM GRITO

hoje uma desconhecida
gritou: amor!
quando eu almoçava
aqui perto de casa
repetiu: amor!
no restaurante
os olhos dela nos meus

quando eu olhei de lado
seu homem estava atrás de mim
mas meu coração não entendeu
– como pode não ser eu?

a gente sempre se chamou de amor
mas quando você ia embora
eu dizia pra mim: 

mágoa
mágoa
mágoa
meu amor

se eu ainda pudesse voltar pra mim
levava ela embora pra sempre
no fim ia ser só amor
por que não foi?

hoje a vida é olhar a janela e esperar
hoje a vida é olhar a janela e esperar
hoje a vida é olhar a janela e esperar
hoje a vida é olhar a janela e esperar
hoje a vida é olhar a janela e esperar


CUYABA TANGO

bombeia o músculo
que nem uma vez descansa
que nem quando criança descansa
só busca em algo ou alguém

não ouso respirar
cruzando esquinas da velha cuyaba
lembro carícias junto ao fogão
dormiam teus pés em minhas mãos

quando eu parti
quem irrigava o meu caminho era você
e essa distância feito um ladrão
me levou teu sexo e o teu rio

mas hoje eu senti
nesse tenso amanhecer o teu clarão
pois é hoje, todos os barcos saberão:
eu voltei!

ao músculo que nem uma vez descansa.


PRONTO PER IL MONDO

se vinco contro me stesso
sono pronto
per il mondo


DENTRO DO TEMPO QUE EU SOU

não estou cansado de cantar
não estou cansado de olhar a cidade
da janela do automóvel
pareço já ter estado ali em todo lugar

consigo escutar você respirar
quando eu me calo no quarto de hotel
e as paredes se tornam tuas mãos
e me envolvem no silêncio do mar

… que enfim descansou
não estou cansado de cantar
não estou cansado de ouvir a cidade
em cada rua que eu passo
pareço já ter vivido ali em todo lugar

e dentro do tempo que eu sou
eu não me canso de olhar
as coisas que eu fui e você segue sendo
meu velho lugar

nada vai durar pra sempre
eu tenho pressa em te ver
nada vai durar pra sempre
mas talvez eu e você

ainda há tempo
nós temos tempo

nada vai durar pra sempre
tenho tanta pressa em te ver
nada vai durar pra sempre
mas talvez eu e você

ainda há tempo
nós temos tempo
ainda há tempo
o que é o tempo?


DE ONDE VOCÊ VEM?

de onde você vem?
qual foi o teu nome?
quem foi teu amigo?

você não sabe nem a cor do chão
quer saber do teu coração?

de onde você vem?
o que te trouxe aqui?
quando tudo se perdeu?

então seguiu estrada sem cessar
até a fronteira

(nos jornais no vento no amanhecer
tudo dizia:
– algo virá)

eu vim de uma dor
que arrasou o céu
só então ouviu dizer
– nas ruas do teu sonho mais apraz
nada satisfaz.

dos cantores tristes
a última canção
correu por toda a cidade
quando a alegria sufocar
que ironia – eu estarei lá

eu fui teu amigo
e morrerei contigo

(depois saiu ao alto-mar
o último que o viu chorou ao lembrar
 – adeus, adeus, adeus!
e um vento cantou).

então amanheceu.